Instruções para a Leitura e Crítica de Textos Olavettes
Este post aqui é só para dar uns direcionamentos mais gerais sobre como tirar mais proveito dos textos da roda olavette. Em primeiro lugar e como regra geral é preciso dizer que tomar consciência das coisas, como as que eu direi aqui, torna possível expandir as possibilidades pessoais de absorção das informações. Em suma, consciência implica em inteligência. Quanto menos se sabe, menos se pode extrair das coisas, portanto menos elas têm a dizer. A ideia aqui é dar dicas de como extrair o máximo possível (dentro dos meus limites). Espero que possa ser útil.
Vou separar em alguns tópicos para ficar mais fácil a leitura e consulta.
#1: Tipos de leitura
Há basicamente 3 tipos de leitura: I) a leitura esparsa, II) a leitura com intenção prévia, III) a leitura cultural. Tenha em mente que eu não me refiro apenas a "ler livros".
- Leitura esparsa é o padrão. Seja com textos, seja com informações de redes sociais ou do que for, nós as recebemos sem um critério nem uma rede de informações no qual encaixar a nova informação. Tudo o que vemos entra na nossa memória de modo esparso, portanto, não importa se estamos lendo Crítica da Razão Pura de Kant ou vendo um vídeo de memes no Youtube, a nossa receptividade para ambos é a mesma. Perceba que é diferente ler por mera curiosidade um livro clássico de ler sabendo previamente sobre o que ele fala, em qual contexto se encaixa, a que responde etc.. Em suma, imagine um jovem de 16 anos (como tem aos muitos) que pegou Kant para ler. Agora imagine um segundo jovem que vasculhou dicionários de filosofia, histórias da filosofia, um livro com resumos de obras filosóficas e, em seguida, pegou o mesmo livro de Kant para ler. O que será absorvido do livro será totalmente diferente. A leitura esparsa, por definição, não se preocupa com isso, então é um grande gasto de tempo para pouquíssimo resultado.
- Leitura com intenção prévia é o vício da nossa época. Significa ter um critério prévio de a que prestar atenção no texto. Existem 2 modalidades: a com base no coração e a leitura especializada.
No primeiro caso, significa que geralmente há temas que você não gosta, ou para o qual só interessa como meio de achar argumentos para atacar. Externamente, diríamos que são por questões ideológicas; no fundo, são questões do coração, ou seja, o ateu lendo a bíblia a lerá com a intenção de achar meios de defesa e de ataque aos religiosos. Se tem isso é porque algo ali lhe parece nocivo, e provavelmente há uma vivência pessoal que o levou a esse "fechamento do coração". Não é o caso de avaliarmos o tema em detalhes, mas sim de dizer que isso impede o "suspension of disbelief", ou seja, torna-se um filtro. Tudo o mais que pudesse ser dito de interessante na Bíblia, ainda que não fosse com intenção de fé, por exemplo, no fator de historiografia ou de literatura, não atingirá o ateu, porque este já definiu previamente o que deseja encontrar ali. Ele passa os olhos no texto, mas as coisas não lhe despertam atenção, então não ficam na memória, como no caso da leitura esparsa. A sinceridade poderia ampliar suas possibilidades de extração de conteúdo.
No segundo caso, na universidade, por exemplo, somos colocados na posição de lermos textos por anos com intenção prévia delimitada pelo professor, que, por sua vez, o delimita com base naquilo que lhe delimita, que é sua área em primeiro lugar e sua disciplina em segundo. De todas as coisas úteis que um texto possa falar, nós o leremos, por pressa de cumprir as tarefas no prazo, por desconhecimento do que mais se poderia fazer com o texto, prestando atenção ali unicamente no que cabe na nossa área. Eventualmente nós até esquecemos que o texto poderia dizer algo mais, porque toda a nossa memória foi modulando o que deseja encontrar nos textos apenas a esses limites, e aí guardamos uma vasta extensão de textos na memória (na proporção do quanto o sujeito foi um bom aluno e pesquisador) com apenas esse critério, excluindo todo o resto das informações. Para desfazer isso seria preciso um grande reconhecimento da própria ignorância, o que é algo quase impossível de acontecer.
- Leitura cultural é a chave de ouro perdida. Aqui não interessa o que nós queremos que o texto diga (leitura com intenção prévia), mas sim tudo aquilo que o texto pode dizer que ainda não sabemos. Essa leitura, que é propriamente a "leitura de um não-analfabeto funcional" é aquela que lê com toda a sua história presente, de modo que o texto sugerirá inúmeras novas ideias e reinterpretações sobre sua própria vida. Com as ferramentas de pesquisa, é possível extrair ainda mais informações, a partir da posse do contexto em que as informações lidas são vivificadas com mais intensidade. É oposto também à leitura esparsa, porque apesar de se assemelhar a ela, aqui requer um interesse em dialogar com o texto. Com as ferramentas certas, adquiridas até mesmo no processo das leituras, surge então a compreensão sobre o grande diálogo das ideias não só do ocidente, como da própria razão humana. Imagino que seja a isso que Olavo se referiu na epígrafe do mínimo:
Se você não é capaz de tirar de um livro consequências válidas para sua orientação moral no mundo, você não está pronto para ler esse livro.
Em alguma medida, é claro, vai haver a intenção prévia. Algum motivo existia para você chegar ao livro. Mas, quanto mais se faça leitura cultural, mais as intenções se tornam pessoais, e/ou toma-se consciência da intenção prévia, de modo a conseguir extrair do texto mais do que o que ela te permite ver.
No caso do projeto, existe uma intenção prévia: ler os livros para fazer uma avaliação. Mas aqui a ideia é que vocês peguem livros já do seu interesse pessoal e que extraiam deles o máximo possível, expandindo-os dentro dos seus limites pessoais. Falarei mais disso nos próximos tópicos.
#2: Critérios gerais de crítica
2.1: O texto SEMPRE está dialogando com algo. Quanto menos o autor tiver consciência, mais fraca será sua afirmação, porque, na prática, ele não sabe tirar proveito do seu espaço linguístico. Esse é um dos critérios fundamentais da crítica: notar o grau de autoconsciência estilística do autor.
2.2: Via de regra, todos os olavettes são especialistas. É a marca da nossa época o "fim" das produções de cultura erudita e popular. Como segunda regra, eles são especialistas não exatamente no sentido acadêmico, apesar de que no mais das vezes dialogarem com a linguagem acadêmica, mas sim "especialistas olavettes": Olavo forneceu uma expectativa de consumo de ideias onde cada um montou uma intersecção entre esse público e o que teve acesso pessoalmente. Se falamos de aprender latim, literatura, desenvolver o imaginário, guerra cultural etc., tudo isso só faz sentido dentro do contexto de ideias aberto pelo Olavo. Quanto menos consciência o autor tem desse contexto, menos abrangente e enraizado será o seu trabalho, porque, no fim das contas, depende desse contexto para existir.
3.1- Pesquisar o nome do autor e ver outras obras que ele possa ter feito. Afinal, uma pessoa não vive o suficiente para ter "duas vidas diferentes". O que ele escrever em outras obras vai ter relação com o que ele escreveu na que você está lendo. Perceber esse fio ajuda a ter uma imagem bem mais completa do que ele de fato sabe e do que ele não sabe, para expandir sua compreensão sobre o tema tratado.
3.2- Dicionários temáticos, Histórias da disciplina, Exposições sistemáticas, outros livros na mesma temática ou disciplina.
3.2.1- Exemplos de dicionários: a) "Dicionário de filosofia" do Abbagnano; b) "Dicionário de termos literários", de Massaud Moisés, c) "Dicionário do pensamento marxista"; d) "Vocabulário de Foucualt" etc.
3.2.1.1- Mais dicionários: Dicionário de ciências humanas; Dicionário de obras filosóficas; Dicionário de ciências sociais; Dicionário de literatura patrística; Dicionário de sentenças latinas e gregas
3.2.2- História da matemática, de Boyer; História do pensamento econômico, de Denis Henri; História da química, de Juergen Maar; História da Literatura Ocidental, do Carpeaux; A litetatura brasileira através de textos, de Massaud Moisés etc..
3.2.3- Conhecimento por presença, do Ronald Robson; a coleção "The cambridge companion to"
3.2.4- Se você pega o livro do Morgenstern sobre os protestos de Junho, e pesquisa o tema, vai achar, por exemplo, sobre as "revoluções coloridas", um modo de entender o protesto de 2013 como parte de um conjunto de protestos que vêm acontecendo no mundo nos últimos anos. O Morgenstern não toca no assunto, então o contraste revela novas informações, bem como, como nos tópicos 1º e 2º, o limite da interpretação fornecida por ele. A mesma coisa pode ser feita quanto a uma obra artística: quais as questões estéticas discutidas na época (para isso, comparar outros países, por exemplo, ou outras obras do mesmo país) versus o que o autor está levando em conta na composição da sua obra.
4º: Forma do texto.
É apenas um complemento aos tópicos anteriores, mas vale a pena mencionar. Perceba:
4.1- Qual a documentação utilizada para embasar a argumentação. É como quem extrai o feijão da casca. Um texto é uma interpretação, mas ele é feito com base em documentos. O Morgenstern se utiliza de links de notícias; um autor especialista vai tender a citar textos da sua área. O Gilberto Freyre, por exemplo, usou diários, romances, livros de fofocas, e uma grande quantidade de documentações "aparentemente inúteis", mas que uma de suas grandes feitas foi justamente torná-los úteis. Isto é, achar o tema em que eles podem se tornar valiosos. Os ensaios geralmente dão mais ênfase na composição de uma ideia do que na documentação que a embase, por exemplo, como com o Vilém Flusser. Geralmente o foco é ensinar um modo de ver as informações e não o contrário (aplicar um determinado modo de ver a um conjunto de fatos). Prestar atenção na documentação utilizada permite ter uma visão melhor da forma, e vice-versa.
4.2- Esqueça o tema e preste atenção em como o autor compõe o seu texto. Sobretudo na literatura após o século XX, o "como se diz" se tornou mais relevante do que o "o que se diz". Como a informação está sendo dita? Ela está juntando áreas diferentes, a princípio inconexas (Vilém Flusser)? Ela está tentando montar uma visão de uma época inteira a partir de uma obra (Carpeaux)? Ela está tentando conectar as ideias eruditas com as ideias populares (Olavo)? A obra literária está apenas contando uma história, está propondo um estilo mais do que o tema ou está propondo uma forma própria? (no primeiro caso, é a literatura convencional; no segundo é a prosa poética ou fluxo de consciência; no terceiro é como a Divina Comédia).
Comentários
Postar um comentário